domingo, 15 de agosto de 2010

The Writer's Block - 2006

Deitado estava sobre meu leito em meu aposento, sozinho feito um condenado do tipo a ouvir a geladeira roncar, ou - le bruit du frigo - caso assim prefira chamar; alcancei uma caneta esferográfica preta e não preciseva molhá-la em tinta para que pudesse deslizar meus pensamentos sobre aquele papel. Entretando ao tentá-lo, resumi meu imaginário em reticências.
Absorto, desci as escadas e dirigi-me à rua, alguns passos rápidos até a esquina, pedi um café e acendi um cigarro para que minhas ideias se amontoassem de volta em cima de meu cérebro e assim foi: cada parágrafo do conto que estava para escrever se iluminou em minha cabeça como que banhado pela luz do fogo aceso para vencer a escuridão de uma caverna; ri-me, por fim, pelo prazer que sentia ao vencer a falta de inspiração. Meus pensamentos parafraseavam Sal Paradise explicando a Dean Moriarty a fissura que se deve ter no momento da escrita, comparando-a à fissura de um junkie por uma picada. Terminei o café e o cigarro e decidi retornar à caneta e ao papel.
Subindo as escadas, não precisei molhar em tinta a caneta esferográfica preta. Tomei em mãos meus instrumentos, fui à escrivaninha e ri-me novamente: agora seria apenas transmitir as ideias do cérebro por meio da mão e da caneta até o papel. E eu digo: seria. Pois de fato não o foi; meus olhos arregalaram-se, subitamente um ar congelante subiu por minha espinha e minha boca ficou seca quando observei minha mente, ali, resumida sob as mesmas reticências de outrora. Caí de joelhos e assim permaneci por alguns minutos até que me lembrei que precisava me levantar e pôr o lixo para fora.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Mon Coeur Mis à Nú I

Eu com meu mau humor padrão da manhã e o dia começa com uma locomotiva em chamas e eu não posso ir ao trabalho - sem problemas - o trabalho vem a mim. Trabalhar em casa, século XXI ao extremo, mas o que importa é que: se for para trabalhar, que seja em casa. Faço tudo de pijama e o descanso é deitado no sofá com tevê, mas não quero falar disso.
Aula e o primeiro dia é cheio de baboseira - yarbles - o bom que acaba logo e eu de volta para casa. No meio do caminho uma música sempre cai bem, mas meus fones são sofríveis e isso interfere na hora de ouvir, tenho que ouvir algo sofrível para aproveitar o ensejo. Deslizei o cursor pelas opções e The Dark Side of The Moon estava fora de cogitação, é claro, mas, além disso, - não sei bem o porquê - uma voz interna sempre me diz que eu não devo executar isso à toa, pois bem, eu a ouço (falo da voz interna). Apesar do frio, os glaciais Peter Bjorn and John (e isso nunca me cheirou a nome de banda, embora simpatize com o som, às vezes) considerei gelado demais para a ocasião, e la Mano Negra era quente demais. Acabei optando por Misfits, com Graves é claro, para justificar os fones sofríveis.
Até que pelas tantas começa a tocar 'Saturday Night', "Fico sentado na cama onde a gente costumava puxar um fumo, agora eu assisto ela definhar (...) Esqueci de dizer uma coisinha: agora fico de choradeira no sábado à noite"; é engraçado como isso fazia mais sentido antes, agora é quase chato, talvez seja porque eu gosto mais de 'Helena' "Se eu te cortasse em pedacinhos - estilo Bruno - você ainda ia gostar de mim?"

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

São Paulo, 07 de agosto de 2010

O ar frio me congelava a ponta do nariz e enrigecia os dedos dos pés quando pisei na rua de fim de tarde aquecido pela pequena multidão que se aglomerava e se dispersava formada pelos trabalhadores carregando pedaços de pão sob braços suados em direção aos lares que já começavam a se iluminar assim como as luzes da cidade para a escuridão noturna de neblima e lua alta sem estrelas e com fogueiras acesas em esquinas como aquela na qual eu observei um tipo boliviano de rosto de carranca e longos negros cabelos que reluziam às lâmpadas dos postes ao lado de sua garota e seu bebê - imagem e semelhança - de pele escura a caminhar do mesmo lado da calçada que a loura de cabelos encaracolados e pernas magras e longas que pavoneava ao passeio sobre saltos agulhas e manchando o filtro do cigarro com o vermelho de seu batom: visão que consumi até o fim, aproveitando a última fatia de soslaio... Caminhei mais um pouco e pensei em como precisava de um trago.