quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

divagação vai até o parapeito com uma cerveja na mão
espera um pouco franze o cenho e sai
assombra a casa, remexe o tapete
pisca a luz, volta à janela
uiva para a lua, nua, é linda
se senta sessenta vezes
com a certeza de quem
já traçou seus planos
pelos próximos trezentos anos
e que agora só resta esperar
com a bunda
funda no sofá

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Rio 5:23 a.m.

o céu do fim da madrugada ainda era nublado no Rio
de alvorada mais clara e aurora que se atrasa
e
o ar quente e úmido da costa
faz gotas de suor deslizarem pelas costas
em meio à espera na rodoviária de mochila pesada
compro um jornal e chicletes
o banheiro é pago
e pago
com uma nota e me devolvem um saco
de moedas nunca contadas
sento e aguardo
penso na viagem
e em me apaixonar pela garota da poltrona da frente
só por causa do perfume que ela usava e
não
pelo rosto que o acaso me omitiu
no ônibus meio cheio que rasga a noite
a sensação de estar meio perdido
não cessa, talvez por pressa
ou por estar a quilômetros
de qualquer lugar conhecido
uma tarde qualquer de mil novecentos e
noventa e nove
.
com o canto dos pássaros, o canto das ruas e o asfalto
úmido, pois choveu todo o dia, mas
.
agora faz sol e os raios tímidos
se derramam pelas amendoeiras sob a sombra das quais
crianças inventam brincadeiras
.
Me vêm à memória fragmentos e me lembro
de como éramos a escória e penso
.
Na pequena Esperanza,
O beijo mais molhado daquela vizinhança.
Ela diz que não é de beber muito, que bebe socialmente
Um gole, outro gole e antes que se possa pensar,
o copo está vazio e ele vem com algo mais doce e ela ainda tem discernimento,
diz que prefere assim, e estamos na terceira dose e o papo fica mais à vontade, ela com gestos pesados,
e sorriso fácil, fala de olhos fechados e beberica sem medo,
.
levanta o dedo mindinho junto ao copo
.
Uma garota bêbada é uma arma carregada
.
Engatilhada
.
Depois de um mojito ela tem uma folha de hortelã no dente da frente, ainda assim é sexy,
ainda mais com a alça do sutiã caída.
Ela quer conversar, duas ou três palavras, ela quer um papo profundo,
os olhos febris e as bochechas e lábios fervendo em vermelho, ela
cita Freud
quer falar de astrologia e você não dá bola
Ela toma o caminho da digressão e de repente as palavras faltam,
.
ela sua,
.
e você se aproxima, não aguenta mais e vai tirar com as próprias unhas a hortelã
que insiste nos dentes dela...
.
Você está cada vez mais perto e seus olhos estão grudados,
tudo em silêncio e o copo descansa vazio ao lado,
não sem a borda manchada de batom
.
Você está quase lá e de repente... Pobre carpete, ela não aguentou,
no ar, o odor azedo; e ela esconde o rosto atrás dos delicados dedos,
você diz que tudo bem, tudo bem, o cacete, ela responde, ela chora, ela não quer mais vê-lo
.
Estou cansada, preciso que vá, deixa que eu limpo essa porcaria.
.
A gente se fala