O relógio marcava quase seis da manhã, Jorge dirigia enquanto o Senhor Genaro ficava no banco de trás à direita:
- O problema é minha filha - Disse Jorge.
- Qual o problema, Jorge?
- Ela está estranha, quartorze anos, o cabelo está colorido, colocou um brinco no maradona.
- No maradona?
- No maradona...
- Isso é coisa e pirata, meu filho. Atrapalha a respiração. Imagine-a gripada, aquela porra vai ficar coberta de ranho - Senhor Genaro caiu em uma gargalhada asmática.
O céu estava roxo hematoma, tocava Miles Davis baixinho.
- Minha mulher... acho que ela está me traindo - Reclamou Jorge.
- Traindo?
- É! Não me procura mais, ela está estranha.
- Você é jovem Jorge, há pouco passou dos trinta e cinco...
- Ela está estranha.
-Quando tiver minha idade, experiência e sabedoria, saberá lidar com isso.
Mais especificamente: Dear Old Stockholm, Miles Davies e seu trompete.
- Não gosto disso - Chorou Jorge.
- É sua ocupação, meu filho.
- O senhor me contratou para ser seu motorista.
- Ora, ora, Jorge, somos um empreendimento organizado e adequado à conjuntura atual.
- E o que isso quer dizer?
- Entre outras coisas, que devemos ser versáteis naquilo que fazemos.
- Mas eu sou só um motorista, não devo sair cobrando os outros, acho que se cada um fizer seu trabalho bem, tudo vai dar certo, e eu sou o motorista.
- Você tem razão, mas só quero que vá cobrar alguns de nossos clientes de forma provisória, interina...
- Você me diz isso há quinze anos.
- E você ainda não se acostumou, CACETE!?
As luzes da cidade refletiam sobre o capô do veículo.
* * *
Ouviram-se três batidas na porta, toc, toc e toc.
- ¿Quién es? - Perguntou o Señior Malamuerte.
Só obteve a resposta ao abrir a porta e reconhecer a cara feia de Jorge que não dizia nada.
- Ya te dice que te paragé la próxima semana.
- Mês passado disse a mesma coisa, Señior Malamuerte.
- ¿Qué puedo hacer? Tuvo problemas, cosas se pasaran.
- Seus problemas não me importam! você ficou de depositar o pagode na conta semana passada e até agora nada.
- Quiero una nueva fecha para el pago, ¿puedo?
- PORRA, Malamuerte! Na minha cara tá escrito otário? Só saio dessa porra com a grana na mão, você pensa que a gente tá brincando? Que é assim? Mas não é assim não, aqui é assim, ó...
- ¡Calma, calma, carajo!
Jorge colocou a mão dentro do bolso do paletó, ameaçou tirar o trabuco pra fora, com pleonasmo e tudo!
- ¡No hay necesidad del hierro!
Jorge tirou o ferro para fora, com pleonasmo e tudo, engatilhou e encostou a ponta do cano fria na testa de Malamuerte.
Tremendo, ele abriu uma gavetinha com a menor chave de um molho ornamentado com um pé de coelho, tirou um bolo de notas de cem.
- Que MERDA é essa?! essa esmola não paga nem metade dos juros que correram só esta semana, Malamuerte, seu verme! Amanhã passo aqui para receber o restante.

Um comentário:
Muy bien, cabrón! Com pleonasmo e tudo.
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